Em nome de Deus, o Beneficente, o Misericordioso

 

UMA IDEOLOGIA NÃO SE IMPÕE A UMA PESSOA BOMBARDEANDOLHE

A SUA CASA

 

St. Ant°. dos Cavaleiros, 21.Maio.2003

Exm°. Sr. Director da Revista "Focus" — Sintra

 

ASSUNTO: Resposta ao artigo "A Sharia" da autoria de Carlos Ventura Martins,

publicado na revista "Focus", n°. 187, de 14/05/03.

 

A humanidade tem regras sadias. Uma ideologia não se impõe a uma pessoa

bombardeando a sua casa, como são apologistas os Venturas Martins. Claro que

ninguém impede os Veturas Martins de Portugal e de todo o inundo irem (porque não

vão?) ter com George Bush, o apologista da pena de morte, «"um homem que já foi

drogado e bêbado — foi ele próprio que o confessou — que está convencido de que é

iluminado por Deus e que vai salvar o Iraque? E o pior é que pretende salvar aquele

país com bombas e tanques." Daí resultam duas preocupações: a "hecatombe

ecológica e cultural" que o conflito bélico está a gerar, uma vez que o Iraque é uma

civilização antiga com rico património. "E toda essa herança trata-se à bomba!

Voltamos à barbárie». — (dito por Dr. Mário Soares, no Porto). Quer dizer: para os

Venturas Martins, a "Sharia" é fanatismo e barbárie; justificar o que Bush fez no

Iraque e querer "prosseguir a limpeza de Bagdad até à minha casa de St. Ant° dos

Cavaleiros", não é fanatismo e barbárie??? E numa democracia ocidental? Onde os

Venturas Martins têm a liberdade de exprimirem a sua ideologia, mas os Mahomedes

Adamgys não têm!

 

Quanto aos Abdooles Vakiles devo dizer que foi publicado, quer no jornal "Público",

quer na revista "Al Furqán", que o historiador A. Karim Wakil reconheceu, por um lado,

que foi «infeliz na utilização do termo 'barbaridade'» e, por outro lado, afirmou que o

jornalista António Marujo «se tinha deixado seduzir pela tentação do título polémico e

provocatório que deu a este texto» e que «a questão de Sharia, como durante a

entrevista me esforcei por enfatizar, é uma questão complexa e delicada», e que «fora

omitido alguma parte do que tinha dito, confundindo, assim, o conteúdo da

entrevista», e que «não era contra a Sharia na sua globalidade, tendo alguma dúvida

sobre o código penal...».

 

Não se deve confundir a Sharia Islâmica com o Regime Ditatorial reinante na maior

parte dos países árabes ditos islâmicos, que de Sharia não têm nada ou não a

cumprem convenientemente; daí, não haver nesses países a tal democracia, moderada

e equilibrada, de que sou apologista, e não da democracia desequilibrada, onde a

liberdade é abusiva, insana e perigosa. A aplicação da "Sharia" não é fácil e só

autoridade dos dirigentes religiosos deve discernir os critérios da sua aplicação, não a

letra mas ao espírito, de acordo com a ijtihad (abertura que consiste no emprego das

faculdades mentais e no emprego do máximo esforço para atingir uma decisão).

 

De resto, a minha referência à Meca e Medina foi, sobretudo, por estes serem

lugares sagrados onde os Muçulmanos vão purificar os seus pecados; por conseguinte,

a malignidade e outras indecências jamais poderiam ter lugar descarada e

publicamente, como têm lugar nas democracias ocidentais (e não em St.º. Ant°. dos

Cavaleiros, como vem referido). Um exemplo só: recentemente, uma escola para

prostitutas que foi aberta oficialmente na democracia ocidental em Amesterdão, com o

objectivo de ensinar as especialistas da mais antiga profissão do mundo a ganhar mais

dinheiro, jamais poderia ser criada em Meca e Medina, na Arábia Saudita, fosse com

regime que fosse.

 

Nunca disse defender o modelo do regime ditatorial Saudita; o que quis dizer foi "se

em Portugal, ao ser; implantada agora a Sharia, não teríamos uma sociedade melhor",

então, também em Meca e Medina, na Arábia Saudita ao ser implantada agora a

democracia ocidental, não teríamos uma sociedade melhor, tendo em conta a cultura e

os usos e costumes nos respectivos países. Não é só indo para os jornais e,

aereamente, chamar de "barbaridade" à Sharia (Código global de vida para mais de

um bilião de Muçulmanos) que vão resolver o assunto. É preciso estudar, discutir e

debater conjuntamente com os especialistas. Aliás foi isso mesmo que, nos princípios

deste ano propus, insistentemente, primeiro por circular interno na Comunidade

Islâmica de Lisboa, e depois através do opúsculo intitulado "Repensar a Mesquita em

Portugal", uma maior transparência, um apelo à discussão aberta, franca e saudável

das questões e problemas que, cada vez mais, estão na ordem do dia. A proposta foi

bem acolhida pela Direcção da CIL, mas até à data nada foi feito.

 

No que respeita à menção de que «foi em nome desta "legislação divina" (Sharia)

que os Ayatollahs do Irão decretaram a pena de morte para Salman Rushdie», devo

informar que 1)- essa condenação de pena de morte foi só e exclusivamente decretada

pelo Irão. O resto do Mundo Islâmico não o fez (embora tivesse condenado a atitude

insultuosa e abusiva de Rushdie), naturalmente porque o Alcorão, a esse respeito diz

«Não há coerção na matéria religiosa... Aquele que rejeita o sedutor (demónio) e crê

em Deus terá lançado mão de um sustentáculo firme, inquebrantável». (2:256). «E

aqueles que, entre vós, renegarem a sua religião, e morrerem descrentes, as suas

acções tornar-se-ão inúteis neste mundo e na Vida Futura. Eles serão os moradores do

Fogo, onde habitarão eternamente» (2:217); 2) – Na época, eu fui comprar o livro

"Versículos Satânicos de Rushdie, li-o e ainda o tenho na minha biblioteca; não o

queimei nem apoiei a morte do seu autor. Mas fui o único que, imediatamente, editou

em Portugal o livro "Versículos Sagrados", em resposta a "Versículos Satânicos", onde

não se responde aos insultos do Rushdie, (como agora não respondo aos abusos

prepotentes do tal Ventura Martins) mas sim, para conhecimento do público, se

esclarece as crenças islâmicas e alguns dos pontos duramente criticados e abusados

por Rushdie. A Comunicação Social, na época, registou isso.

 

E preciso ter, além de malvadez, estupidez e fanatismo, uma grandessíssima

ignorância para os Venturas Martins acharem que "cartas como esta que defendem a

'Sharia" justificam que George Bush tenha feito o que fez no Iraque". Ignoram que o

Iraque era um país laico, onde não havia implantada a lei de 'Sharia', mas sim uma

ditadura horrível que foi aplaudida e apoiada, desde o seu início, e por longos anos,

pêlos EUA e por outros países do ocidente que fartaram-se de fazer negócios chorudos.

 

Em relação a «o Estado ter que ver com todos e a religião (ou a não-religião) tem

que ver com cada qual», deixe-me dizer ao tal Ventura Martins que isso, além de ser

uma hipocrisia é uma grande mentira: Vejamos a questão de alguns países europeus

não permitirem que as raparigas muçulmanas usem o véu, A França diz 'somos um

país secular, não temos símbolos religiosos nas salas de aula', (Portugal tem símbolos

religiosos nas salas de aula de algumas escolas públicas), mas a verdade é que quase

todas as festas que são comemoradas nesses países, como a Páscoa, o Natal, são

cristãs, não há feriados em relação às festas muçulmanas, como o fim do Ramadão ou

o fim da Peregrinação, por exemplo. Alguns ocidentais ou cristãos podem não praticar

ou prestar atenção à religião de forma deliberada, mas comemoram a Páscoa, esperam

ansiosamente pelas férias do Natal. Até as Nações Unidas têm feriado de – Natal, e

não penso que assinalem o Ramadão. Por isso seria bom que houvesse coerência nas

afirmações e se fizesse mais esforço para compreender o ponto de vista dos

muçulmanos, em vez de, ignorante, incompetente e fanaticamente combater o Islão,

uma religião universal que, embora já tenha mais de 14 séculos, conserva ainda

mesmos valores e ganha, todos os dias, cada vez mais adeptos na Europa e no

mundo, tendo dado cartas ao mundo na altura da “idade das Trevas”, «quando —

segundo o honorável Bertrand Russel — a Europa se afundava em barbarismos. Os

Europeus, com uma insularidade imperdoável, chamam a este período "os anos

negros", mas só na Europa existia, na verdade, a escuridão, com a excepção da

Espanha, que era muçulmana, e possuía uma cultura brilhante».

 

Yiossuf Adamgy

Director de Al Furqán

Editado por:

Al-Furqán – Órgão para a Divulgação do Islamismo

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