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Entrevista: Tariq Ramadan





A whole Family Converts to Islam

 



Em nome de Deus, o Beneficente, o Misericordioso �

Entrevista: Tariq Ramadan Chega de destrui��o. O fil�sofo mu�ulmano diz que a ponte entre o Ocidente e o Isl�o � poss�vel e desej�vel.

Ant�nio Ribeiro, de Londres. Se o Isl�o fosse um califado, o terrorista Osama bin Laden teria hoje o turbante mais alto. Mas, se dependesse da pureza da linhagem, o acad�mico su��o Tariq Ramadan poderia, perfeitamente, reivindicar o comando. Ele � neto do eg�pcio Hassan al-Banna, fundador da Irmandade Mu�ulmana. (...) eu pai, Said, um dos fundadores da Liga Mundial Isl�mica, foi expulso do Egipto e se refugiou na Su��a. As armas de Ramadan s�o as ideias. Ele � autor de vinte livros que projectam sua vis�o reformista de um mundo mu�ulmano integrado aos valores liberais do Ocidente. Professor de filosofia europeia e estudos isl�micos no Saint Antony's College, em Oxford, na Inglaterra, ele transformou-se em guru dos jovens mu�ulmanos europeus. Ramadan est� proibido de pisar numa meia d�zia de pa�ses �rabes e tamb�m nos Estados Unidos. Na semana passada, enquanto multid�es saiam �s ruas em v�rios pa�ses em protesto contra a publica��o das caricaturas de Maom�, Ramadan, 43 anos, entrou num caf� em Ealing Broadway, em Londres. Pediu um cappuccino e conversou com a VEJA.

Veja � O mundo seria melhor se os conflitos entre povos e na��es fossem fossem resolvidos por meio guerras caricaturas?

Ramadan � Caricaturas e humor dependem da realidade de cada um. Certas coisas s�o universalmente engra�adas, outras n�o. Devemos ter cuidado com aquilo em que achamos gra�a. Num universo de tantas refer�ncias, algumas pessoas podem n�o achar gra�a nenhuma em determinado assunto. Os mu�ulmanos n�o est�o habituados a fazer piada com religi�o. Por outro lado, os pa�ses ocidentais est�o acostumados com isso h� pelo menos tr�s s�culos. Um mundo melhor seria aquele em que todos n�s, sendo razo�veis, escut�ssemos uns aos outros, e n�o se tentasse impor aos outros o nosso senso de humor.

Veja -As charges de Maom� deveriam ser publicadas?

Ramadan � Do ponto de vista legal, sim. No contexto de nossas sociedades cada dia mais pluralista, com diferentes sensibilidades, eu diria que n�o � s�bio public�-las. Liberdade de express�o exige responsabilidade. � preciso ser razo�vel. Diga o que voc� tem a dizer, sem ofender as pessoas. Na Europa, os jornais n�o ferem a sensibilidade dos judeus. Por qu�?

Veja � Como determinar o que � s�bio publicar?

Ramadan � Existem a letra fria da lei e o cotidiano das pessoas. S�o coisas distintas, A discuss�o come�ou na Dinamarca, entre jornalistas. Alguns achavam que as caricaturas deveriam ser publicadas, outros que eram pura provoca��o. Quando a provoca��o vai gerar reac��es exageradas? Se algu�m disser que esses par�metros s�o subjectivos, que tudo deve ser baseado na lei, estar� certo. Mas a vida � assim? Veja � O que o senhor quer dizer com isso?

Ramadan � A vida nunca � uma quest�o de escolher entre o sim e o n�o. Isso � uma vis�o bin�ria do mundo, da qual discordo. Porque sou livre, fa�o o que quero. Ent�o fa�a, e voc� ter� o confronto. Do lado dos mu�ulmanos, porque � proibido, n�o fa�a. Essa atitude preta ou branca � perigosa. N�o conduz as pessoas ao di�logo, mas � disputa por poder. Essas quest�es s�o uma projec��o da vida, merecem respostas com nuances.

Veja � As refer�ncias n�o devem ser claras?

Ramadan � Convivemos com pessoas que n�o dividem os mesmos valores e sensibilidades. O que devemos fazer? Eu ou voc�? Eu contra voc�? O que precisamos � de conhecimento m�tuo. Se eu n�o sou igual a voc�, n�s precisamos nos conhecer. Uma sociedade democr�tica nunca ir� reduzir o conv�vio das pessoas apenas ao aspecto legal. A Europa tem valores intoc�veis. Quem for viver aqui dever� respeit�los ou estar� ferindo a consci�ncia europeia. Costuma-se fazer piada na Europa e nos Estados Unidos com o sofrimento judeu? N�o. E concordo plenamente que n�o se deve faz�-lo, mesmo que seja legalmente permitido. A precau��o intelectual quando se abordam quest�es sens�veis � o ponto de partida do humanismo.

Veja � Quais s�o os limites a ser respeitados quando se fala em liberdade de express�o?

Ramadan � � preciso respeitar a sensibilidade colectiva. O problema � que muitos europeus notaram que o continente onde vivem mudou, tornou-se ainda mais diverso do que j� era. N�o � mais poss�vel encarar o Isl�o como algo estrangeiro. Veja o meu caso. Como muitos filhos de imigrantes, sou europeu e mu�ulmano. Portanto, a liberdade de express�o deve respeitar tamb�m a sensibilidade mu�ulmana. Ao mesmo tempo, digo aos mu�ulmanos, tomem uma atitude cr�tica e intelectual diante da realidade, n�o reajam apenas emocionalmente. Eles devem levar em conta que os europeus viveram de acordo com essas regras durante s�culos.

Veja � Muitos europeus temem que os mu�ulmanos n�o estejam atr�s de respeito, mas de submiss�o?

Ramadan � Por que submiss�o? Quem pensa assim n�o tem confian�a em si pr�prio. � medroso, sua atitude n�o emana do orgulho, mas do medo. "Esses caras est�o colocando minha identidade e valores em risco," Eu falo em conviv�ncia, em viver juntos. Estou interessado em construir pontes entre as pessoas, para criar um futuro comum.

Veja � A reac��o mu�ulmana �s caricaturas foi exagerada?

Ramadan � N�o foi apenas exagerada, mas insana. Acho errado amea�ar governos e a imprensa, promover boicotes econ�micos, queimar embaixadas e bandeiras. N�o � isso que devemos fazer. Muito menos essa competi��o de ofensas contra os judeus lan�ada p�los jornais iranianos.

Veja � Por que n�o se viu no mundo isl�mico a mesma indigna��o depois dos ataques terroristas em Nova York, Madrid e Londres?

Ramadan � Porque no in�cio houve aquela atitude paran�ica de achar que se tratava de uma conspira��o internacional e de que "n�o temos nada com isso". Grande parte da elite mu�ulmana condenou os ataques, mas no n�vel popular n�o houve como��o. Desta vez, a quest�o toca mais de perto a sensibilidade popular que est�, claramente, sendo instrumentalizar. Estive em Copenhague em Outubro e ainda n�o havia amea�as. Mais tarde, alguns mu�ulmanos dinamarqueses visitaram pa�ses �rabes e passaram a mensagem alarmista. Ou seja, houve uma m�ltipla instrumentaliza��o por parte de governantes que se diziam defensores de valores isl�micos e de ditadores �rabes que apontavam os pa�ses ocidentais como respons�veis por todas as frustra��es de seus povos. Na Europa, a extrema direita tamb�m aproveitou para dizer que os mu�ulmanos n�o t�m condi��es de integrar a sociedade ocidental.

Veja � Por que n�o h� ningu�m do lado israelita e da comunidade judaica tocando fogo em embaixadas?

Ramadan � Porque os judeus entenderam que isso � pura provoca��o. E tamb�m os israelitas n�o vivem, como 80% dos �rabes, na mis�ria e ignor�ncia. Eles n�o t�m as mesmas frustra��es, tampouco o sentimento paran�ico de estar sendo amea�ados, continuamente, p�los pa�ses ocidentais. E, dizendo isso, vou ser proibido de entrar em outros pa�ses, al�m da S�ria, Ar�bia Saudita, Egipto, Tun�sia.

Veja � Em que sentido a pobreza influenciou a rea��o violente � publica��o das caricaturas?

Ramadan � Mis�ria e ignor�ncia propiciam reac��es populares puramente emocionais. � mais f�cil para os governos locais, sob press�o para abrir sua sociedade e adoptar a democracia, direccionar essa f�ria para longe deles e na direc��o do Ocidente. � por isso que os incidentes mais graves ocorreram nas na��es mu�ulmanas que est�o em confronto aberto com os pa�ses ocidentais, L�deres fundamentalistas tamb�m se utilizam com frequ�ncia desse discurso do estilo "n�s contra eles". Eles acabaram beneficiados pelo fato de uma caricatura ter mostrado o profeta Maom� com uma bomba no turbante. Esse detalhe refor�ou a ideia de que os ocidentais n�o gostam do Isl�o. O mu�ulmano moderado sentiu-se ofendido ao ser visto no Ocidente como um terrorista.

Veja � Por que os mu�ulmanos europeus reagiram de forma mais comedida?

Ramadan � Os mu�ulmanos europeus entenderam de cara o desafio que a quest�o das caricaturas impunha e o perigo que ela representava. Os mu�ulmanos franceses tomaram a iniciativa de processar os jornais, Embora eu n�o concorde, � uma atitude menos emocional e, de certa forma, uma abordagem mais construtiva. Ou seja, n�o ca�ram na tenta��o iraniana de querer se exibir como o l�der da resist�ncia ao imperialismo ocidental. Os mu�ulmanos europeus devem permanecer firmes contra essa insanidade.

Veja � Estamos vivendo um confronto de civiliza��es?

Ramadan � N�o, o que estamos presenciando s�o confrontos dentro de cada civiliza��o. Tanto no Ocidente como no mundo isl�mico existem aqueles que defendem a necessidade de enfatizar os valores comuns das duas sociedades. Os obtusos, em oposi��o, acham que seus princ�pios s�o melhores e devem ser seguidos p�los outros, nem que seja na base da imposi��o. Minha posi��o � a seguinte: os moderados devem se unir e rejeitar as polariza��es. Se o Ocidente e o Isl�o partirem para o confronto de civiliza��es, os dois lados sair�o derrotados.

Veja � O Isl�o � compat�vel com as liberdades ocidentais?

Ramadan � Claro que sim, � compat�vel com o Estado de direito, com a igualdade de cidadania, com a separa��o das esferas p�blica e privada, com governos transparentes, A percep��o de que o Isl�o � dominador, dogm�tico e violento, enquanto o mundo ocidental � livre, democr�tico e racional, representa uma vis�o manique�sta, completamente sem sentido, baseada no desconhecimento da hist�ria do Isl�o. Tivemos nosso per�odo das luzes e tamb�m de trevas. H� uma boa dose de influ�ncia isl�mica nos valores ocidentais. Do ponto de vista cultural, considero-me ocidental e, portanto, favor�vel � democratiza��o dos pa�ses isl�micos e � liberdade de express�o.

Veja � O Isl�o precisa de um Voltaire (nome liter�rio de Fran�ois-Marie Arouet, 1694-1778, escritor franc�s not�vel por suas ideias anticlericais e pela cruzada contra a tirania)?

Ramadan � O Isl�o precisa de mais estudiosos, de intelectuais com disposi��o autocr�tica. O que temos hoje n�o � progresso, mas regress�o. Existe um imenso abismo entre nossos ideais e nossa pr�tica. Portanto, precisamos de reformas � e elas n�o podem vir de fora, ou ter�o efeito contr�rio. O mundo ocidental tem um papel importante a desempenhar, que � dar espa�o a uma reforma aut�noma do Isl�. Mas � preciso admitir que o Isl�o nunca ser� exactamente como o Ocidente quer.

Veja � Que tipo de reformas o senhor defende para o Isl�o?

Ramadan � Precisamos parar com essa mania de achar que todos os nossos problemas s�o causados pelo Ocidente. H� anos venho pregando reformas em livros, artigos e confer�ncias. No mundo isl�mico, muita gente prefere me acusar de ser fantoche dos americanos. Fui convidado para leccionar na Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos. Mas o governo americano negou o meu pedido de visto com base na legisla��o anti terror criada depois dos atentados de 2001. Ou seja, nem entrar no pa�s eu posso. De que adiantaria eu assumir o papel de v�tima, como sempre fazem os mu�ulmanos, achando que todos os problemas v�m de fora?

Veja � Por que o senhor pediu uma morat�ria na pr�tica de apedrejamento das mulheres ad�lteras no Isl�o, e n�o um banimento total?

Ramadan � Porque essa puni��o est� escrita no Alcor�o (1), que � a palavra de Allah. N�o � poss�vel simplesmente pedir para retirar esse trecho do livro santo. O mais importante � parar com a pr�tica at� que ela se torne um h�bito em desuso. Depois, precisamos avan�ar com a ideia de que, se h� texto, tamb�m h� contexto. Apesar de tudo, eu disse para quem quisesse ouvir na Ar�bia Saudita e na Nig�ria que sou contra apedrejamento, puni��es f�sicas e pena de morte. � preciso ir devagar.

Veja � O que deve ser feito para acalmar os fundamentalistas?

Ramadan � Precisamos tra�ar uma linha divis�ria. Alguns radicais pregam n�o s� atitudes estranhas, mas tamb�m contra a verdadeira natureza do Isl�o. Essa pr�tica precisa ser condenada sem hesita��o. Mas n�o basta, � preciso que a repugn�ncia seja comunit�ria.

Veja � Qual o melhor caminho para reduzir a tens�o entre o Isl�o e o Ocidente?

Ramadan � O fato de existirem milh�es de descendentes de �rabes e mu�ulmanos vivendo no Ocidente causa um impacto tremendo no Isl�o. O mundo isl�mico est� de olho em n�s. Se conseguirmos estabelecer uma boa conviv�ncia, sob uma base de confian�a m�tua, estaremos enviando o sinal de que � poss�vel repetir essa experi�ncia num patamar mais amplo, entre o Isl�o e o Ocidente. O maior atrito ocorre na Europa, mas � tamb�m onde h� maiores possibilidades de di�logo. O desafio � tremendo. O caso das caricaturas � o sonho da extrema direita europeia e tamb�m dos extremistas isl�micos, pois atrapalha o entendimento. Os mu�ulmanos europeus precisam estar totalmente comprometidos com a identidade europeia e convictos de que esta sociedade � tamb�m a deles.

Veja � Como o senhor provocaria mais admira��o no seu pai?

Ramadan � Construindo pontes entre os dois mundos aos quais perten�o, e que hoje est�o surdos e se vendo como caricaturas.

(1) - A puni��o que vigora no Alcor�o n�o � o de apedrejamento, mas sim de 100 chibatadas, para a ad�ltera e o ad�ltero, quando comprovado com o testemunho ocular de 4 pessoas. Ver entrevista dada pelo Prof. Mahmoud Azab� em Fran�a, subordinado ao tema "N�o existe, no Alcor�o, vest�gio algum de incita��o � lapida��o!" (� Nota de Al Furq�n)

Editado e publicado por: Al-Furq�n � �rg�o para a Divulga��o do Islamismo Rua Guerra Junqueiro, Edif�cio 11-B, 1.�F Cidade Nova, 2670 � 045 St.� Ant�nio dos Cavaleiros Loures � Portugal Telefone / Fax: +351 21 988 2028 E-mail: alfurqan00@hotmail.com Internet: http://www.alfurquan.pt